O que aconteceu com as nomeações para a Diretoria Colegiada da Ancine?

No fim de fevereiro, o setor teve a notícia do envio dos nomes indicados para terminar de compor a Diretoria Colegiada da Agência Nacional do Cinema.

Já muito comentados, os nomes de Edilasio Barra e Verônica Brendler causaram revolta e desconfiança por seu passado religioso e agirem como braços direitos desse governo neopentecostal.

Na ocasião, fiz alguns breves comentários sobre a nomeação, chamando atenção para o currículo de Edilasio, que mesmo sendo pastor e religioso fervoroso, não é ninguém que podemos dizer que não sabe o que está fazendo, tampouco que desconhece nossas legislações.

Na Ancine desde o ano passado, “Tutuca” (como é popularmente conhecido) já encabeça discussões importantes sobre os investimentos do FSA, mas colocar a culpa nele, na questão do atraso da liberação de recursos é, no mínimo, ingenuidade.

Já o segundo nome indicado pelo Presidente Bolsonaro, Verônica Brendler, não poderia subir ao cargo nem mesmo com muito esforço. Isso porque a Lei das Agências diz claramente que o profissional precisa ter no mínimo 10 anos de experiência no setor, e Verônica tem menos que isso.

No entanto, já se passaram meses desde que Bolsonaro enviou os nomes para o Senado e até agora nada aconteceu. Apesar de estarmos na pior crise sanitária dos últimos cem anos, o que realmente o Senado espera para apreciar esses nomes?

Acordos com o Centrão também irão atingir a Cultura.

A crise política do Brasil vem se agravando cada vez mais, e com isso em pauta, a ala do Centrão viu uma oportunidade valiosa para retomar seu poder em alguns ministérios mais importantes para o país e que estão sofrendo com o desmonte.

Mesmo antes da recriação do Ministério das Comunicações, o Centrão já estava deixando claro o seu interesse em ter nomes confiáveis para outros setores que envolveriam os interesses culturais.

Um desses acordos vislumbrados no parlamento diz respeito à Ancine. Em abril, quando se começava a cogitar com mais força um possível impeachment de Jair Bolsonaro, o Centrão incluiu na sua lista de exigências um cargo na Diretoria e a presidência da Agência.

O pedido veio forte, uma vez que quem encabeça isso é a deputada federal Soraya Santos, que é a primeira secretária da Câmara e por quem, futuramente, passará a apreciação do veto 62.

Dentre os nomes exigidos pelo Centrão está a manutenção de Alex Braga como diretor-presidente da Ancine mesmo depois do fim do seu mandato no ano que vem. Braga hoje trabalha como diretor interino desde a saída de Christian de Castro e teria que sair do cargo caso o Senado aprove um nome indicado pelo Presidente da República.

Semana passada, o Congresso Nacional voltou a colocar a apreciação do veto 62 na pauta, mas não chegou a trabalhar nele, adiando o trabalho para outro momento. Entretanto, apesar de ser prejudicial todos esses adiamentos, o atraso também pode estar ligado a essas exigências.

Com suas operações praticamente paradas desde 2018, a Ancine se tornou o centro de muitas disputas políticas no governo. Parte disso se deve ao fato da riqueza dos recursos hoje estocados no FSA, uma prova de que as políticas públicas executadas ao longo dos anos deram retorno.

Apesar do seu discurso conservador e religioso, o principal interesse de Bolsonaro em destruir a Agência e as leis de incentivo é, inteiramente, pelo viés econômico. Com praticamente carta-branca, Paulo Guedes também namora a extinção dos Fundos, e obviamente tem aval do governo para tal.

No entanto, o que ingenuamente a “turma do fundão” não sabia, é que o Centrão também tem fortes interesses na pasta do audiovisual, como já de praxe durante décadas.

Hoje o parlamento é o lugar de força para o audiovisual, e compreendendo a sua importância econômica e possíveis retornos, o Centrão não pretende se descuidar da Ancine tão cedo, gerando uma dor de cabeça para aqueles que, a esta altura, já pensavam que a extinção estaria completa.

Com a recriação do Ministério das Comunicações, fica ainda mais claro os motivos pelos quais o Senado parece ter esquecido de apreciar os nomes indicados. O tsunami chamado Ancine ainda não perdeu força.

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