Marché du Film online, exibidores europeus e o que poderá servir de exemplo para o mercado brasileiro.

A Europa começa a dar sinais concretos de como serão as medidas emergenciais adotadas durante o combate da pandemia de Covid-19. O continente é um dos maiores afetados pela doença e teve que readaptar diversos modelos de negócios.

Um deles foi o Festival de Cannes, que até os 45 do segundo tempo tentou suportar uma edição presencial, medida que foi suspensa após pressões por parte do CNC e do próprio governo federal.

Sendo forçados a encarar o digital e finalmente se reinventarem, na última semana o bom senso prevaleceu e a diretoria do maior festival de cinema do mundo divulgou uma edição online restrita ao mercado.

Qual será o impacto desta edição?

A Marché du Film é o maior mercado de venda, one to one meetings e de film commission do mundo para a indústria cinematográfica. A falta de um espaço para esse encontro resultaria em uma perde de receita significativa para a economia criativa de diversos países.

É necessário que se encare o cinema como um amplo mercado financeiro, acordos de investimentos e empréstimos são feitos todos os anos para diferentes realizadores, distribuidores e produtores todos os anos, algo que não pode e nem irá esperar conservadores para cobrar o capital investido.

Por ser o maior mercado do mundo, muitos filmes são programados para terem o lançamento durante o Festival de Cannes, diversos deles sem acordos prévios de distribuição internacional e que precisam da exposição para pagar a realização do filme.

Ao decidir não romper o laço, Cannes ajudará em simultâneo diversos realizadores independentes que precisam continuar gerando receitas para não caírem em prejuízos gigantescos por falta de pagamento. Engana-se quem pensa que este mercado é exclusivo para consagrados da indústria.

Mesmo sendo vital para a saúde de um bom networking ter o contato físico, é necessário que se utilize das armas tecnológicas para que a indústria cinematográfica continue girando, abandonando velhas práticas de mercado que já se provam incapazes de serem sustentadas em um cenário de crise.

Além disso, a edição online traz a oportunidade de maiores acordos com o mercado de streaming, uma vez que com o parque exibidor fechado, estes filmes têm grandes chances de performarem online.

Será que aqui cabe continuar a discussão do que é de fato cinema e onde este formato é válido enquanto exibição? Eu diria que o debate deve ser em prol do licenciamento que beneficie ambos os lados desta cadeia, buscando no streaming um parceiro comercial ao invés de apenas um empregador.

O cenário também favorece a aprovação da lei francesa que regula este mercado online e que trará benefícios a médio e longo prazo para uma indústria que precisará se reestruturar.

Exibidores europeus falam de reabertura a partir de julho.

Mesmo tendo afetado boa parte da Europa, a pandemia do novo coronavírus não desanima a UNIC (União Internacional dos Cinemas).

Representantes de 38 nações da Europa deram um parecer esta semana sobre um possível retorno de parte do parque exibidor já para julho. Embora esta previsão caiba apenas para os países menos afetados, eles servirão de experimento para o resto do mundo.

Os exibidores europeus também comentam sobre sua capacidade de resposta a novos lançamentos mesmo com o cenário caótico em que os Estados Unidos se encontram. Eles esperam que isso não seja necessário e a valorização do produto interno pode ser melhor beneficiado.

O mercado europeu também não vê o streaming como uma grande ameaça, visto que pesquisas recentes dão um parecer favorável de que a experiência da sala de cinema continuará viva apesar da adversidade.

Posições importantes podem impactar a união do mercado brasileiro em resposta ao público e aos colaboradores da indústria.

O sentimento de união por parte dos elos da cadeia cinematográfica europeia deve servir para potencializar a capacidade de resposta coletiva dos exibidores brasileiros.

Muito além de cobrarem o apoio estatal para que não precisem declarar falência, estes exibidores precisam estar conscientes da importância de novos filmes nacionais nas salas de cinema.

Ainda que os mais urgentes podem surgir em breve no mercado de streaming, dar espaço a estas produções fará toda a diferença para a continuação da indústria no Brasil.

Para o retorno do mercado brasileiro, a Europa serve como um importante termômetro para futuras tomadas de decisão, se tornando um cenário muito mais importante de ser copiado do que os Estados Unidos.

A cobrança por parte dos realizadores e órgãos importantes deve ser contínua para que a ação governamental enxergue a classe artística como um setor a ser defendido e capitalizado.

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