Coronavírus e mercado exibidor: o que esperar do futuro das produções cinematográficas latino-americanas.

Enquanto exibidores norte-americanos veem positividade da melhora da pandemia no mercado exibidor chinês e uma possível oportunidade de em breve lançarem seus títulos por lá, a América Latina vive um momento de grande incerteza.

Se especialistas em economia já davam o parecer que o continente seria extremamente afetado por uma grande crise econômica, o tempo se fecha ainda mais quando falamos do audiovisual.

Em jogadas de perfeito neoliberalismo, exibidores brasileiros e argentinos já se manifestam no intuito de romper com seus compromissos estatais.

Mercado exibidor brasileiro e a suspensão da cota de tela para 2020.

Nos últimos anos, a cota de tela se tornou protagonista de um debate, por vezes ignorante, na sociedade civil. Se aproveitando da ingenuidade e falta de acesso às leis que regem o setor audiovisual brasileiro, políticos promovem a falsa ilusão de que a cota de tela é algo que pode ser deixado de lado.

Se por um lado Temer acatou o lobby promovido pela MPAA para o massivo lançamento do último filme da franquia “Vingadores”, hoje exibidores brasileiros pensam em pedir formalmente ao governo que suspenda a cota de tela de filmes brasileiros para o resto de 2020.

A lei da cota de tela diz claramente que os dias que as redes de salas estiverem fechadas, não conta como um dia válido, sendo assim preservado o direito dos filmes performarem no parque exibidor quando tudo se normalizar.

Em um ato de desrespeito com o mercado produtor, exibidores tentam se eximir da obrigação para poder lucrar mais com blockbusters de Hollywood e se recuperarem em tempo recorde do baque econômico.

O cinema no Brasil, assim como em outras partes do mundo, somente consegue rodar se seus três elos estão cumprindo com seus deveres, dito isso, produtores e distribuidores precisam estar alinhados para deter uma futura possível barbárie e um total apagão antecipado das produções brasileiras.

Mercado exibidor argentino e a suspensão do imposto de 10% para uso do INCAA.

Vivendo um governo mais progressista depois do arraso econômico da época macrista, a Argentina hoje tem um trabalho árduo para reconstruir seu protagonismo cinematográfico.

Se a pandemia deixa esse mercado a beira da UTI, exibidores agora querem embolsar o imposto que mais sustenta o fomento cinematográfico do país.

Em uma carta enviada diretamente ao atual presidente do Instituto Nacional de Cine y Artes Audiovisuales (INCAA), Luis Puenzo, exibidores pedem a postergação do envio dos 10% previstos em lei como uma forma de recuperação do mercado.

Em uma resposta categórica, Luis decidiu não acatar o pedido e os lembrou que estes 10% são pagos pelo próprio cidadão no ato de compra dos ingressos, recordando também que nos últimos meses antes da pandemia atingir a Argentina, o país viveu um recorde de ingressos vendidos, deixando o caixa dos exibidores cheios e sem necessidade de uma medida drástica dessa maneira.

A medida atingiria em cheio o mercado produtor argentino, que nos últimos anos já vem sofrendo com a falta de apoio real do governo e seria praticamente impossível ser recuperado caso perdessem temporariamente este apoio.

Os dois movimentos servem de alerta para o setor de que seus direitos previstos em lei estão sempre em constante perigo, caso caia em mãos erradas. O momento de paralisia produtiva deve servir como manifesto contra medidas liberais a boa continuidade da indústria criativa.

No entanto, isso deixa de ser um problema apenas da América Latina, poderemos ter panoramas parecidos em outros países nos próximos dias ou meses. É hora de proteger o máximo de leis possíveis e tentar apaziguar um futuro que já é devastador.

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